Parece que fora da internet a gente nem existe

Parece que fora da internet a gente nem existe. Some. Pluft. Mas a gente existe sim. No contexto de brasileira em pandemia, parece que uns têm mais direito à existência que outros. Mas isso é conversa pra depois.

Não posso fazer nada sem internet. Hoje. Em quarentena. Mas um dia já pude e lembro disso até com certa nostalgia agora que meu rosto encontra mais a luz da tela que a luz do sol. Por vinte e seis anos eu existi sem acesso à internet.

Um pendrive dentro do estojo com prints de sites tirados rapidão no intervalo entre aulas da faculdade. Esse era meu acesso à internet. Um pendrive com coisas que quem-sabe-talvez pudessem me ajudar a cumprir as demandas da universidade quando eu chegasse em casa. Não dava muito tempo de ler os sites. Eu copiava tudo e depois, já sem rede, descobriria se tinha dado bom ou se tinha me fodido.

Fio do notebook esticado ao máximo. Da tomada da garagem até onde a barrinha de sinal do modem 3G começasse a aparecer. Um tracinho. Assim era quando tentava conectar de casa.

Lá em cima do cantinho mais alto do sítio, quase dentro do potreiro das cabras, talvez ele atingisse dois tracinhos. O fio do meu notebook não chegava até lá. Fora da tomada, não durava nem dez minutos ligado. Meu pendrive passeava pelos computadores da faculdade pelos do estágio pelo meu notebook e pelo netbook do meu pai.

O modem e o pendrive enfiados em entradinhas lado a lado num netbook 9x10 polegadas. O netbook apoiado nos meus joelhos cobertos pela calça de pijama. A calça de pijama que também cobria minha bunda sentada num toco no ponto mais alto do sítio. Um breu, só a luz da tela e um cachorro de cada lado querendo colocar a testa embaixo das minhas mãos pra ganhar carinho. Um teclado babado e mãos que não conseguiam digitar. Essa era eu fazendo faculdade nos anos 2010.

A internet chegou no sítio poucos meses antes de eu sair, já formada, em 2016. Grandes operadoras não têm interesse em pequenas demandas. Lá, até hoje é LP Internet. O dono fala com meu pai pela zap e a cobrança é um punhado de mini boletos impressos de forma caseira grampeados como um carnê.

Com 21 anos, eu fazia jornalismo, tinha aula todas as manhãs e estagiava todas as tardes. Com 31 anos, eu trabalho com comunicação, toco projetos independentes, faço uma segunda faculdade e sustento dois gatos. Fora os gatos e eu, tudo é virtual.

A ansiedade que sinto por estar sempre na internet nem sonhava em existir quando ela só estava na minha vida em horário comercial. Eu existia. A ansiedade não. Mas o que me vem à mente hoje é: como eu estaria se a pandemia tivesse acontecido em 2011? Eu fiz até um TCC sem internet, mas, em pandemia, eu não conseguiria sequer carregar, sequer baixar um arquivo no moodle da universidade. Mesmo subindo no morrinho das cabras. Perderia meu estágio. Trancaria o curso. Ou não, já que o processo é todo online também. A ansiedade existiria. Eu sumiria. Pluft.

Antes que alguém entenda errado: isto não é uma defesa ao ensino presencial em pandemia. Sigo defensora ferrenha do isolamento social.

Isso aqui é mais para dizer que muita gente ainda vive assim. Recém faz cinco anos que a internet chegou na casa dos meus pais. Na casa dos meus pais, não em toda a zona rural da cidade. Pessoalmente, em cinco anos, pulei de um pendrive representar meu acesso à internet para ter uma série de compromissos falando no espelho que são as videochamadas. Coletivamente, o impasse não tem resposta: nada online é para todo mundo. Tudo presencial é irresponsável e assassino. Assassino especialmente para aqueles que também não têm existência virtual. Parece que todos os caminhos os fazem desaparecer. Pluft.

Jornalista e Professora e tudo isso é só uma pequena parte.

Jornalista e Professora e tudo isso é só uma pequena parte.