Eu era uma criança que acreditava em muitas coisas

Quando criança, eu costumava rezar todos os dias antes de dormir. Fazia o sinal da cruz e seguia com uma ave maria, um pai nosso e algumas repetições de santo anjo, esse último era como se fosse um mantra. Eu jamais encerrava a oração com outro sinal da cruz.

Na minha cabeça, deus não podia ser onipresente, mas ele vinha quando a gente chamava e o sinal da cruz era como um código secreto para ele descer aqui. O segundo sinal da cruz, então, era o sinal de que a conversa estava encerrada e ele podia ir embora. Nada boba e talvez um pouco egoísta, eu deixava a conversa em aberto para deus seguir por ali e me proteger da mulher que eu via se arrastar pelo chão esperando que um pedacinho do meu pé saísse da cama.

Uns anos depois, chegou a mim a lenda da maria degolada e toda aquela história de que era melhor não dizer o nome dela três vezes. Talvez dizer apenas maria três vezes já fosse suficiente para ela aparecer, já que esse era o nome, degolada veio depois que ela morreu afinal. Muito esperta, deixei de rezar ave maria e torcia que nossa senhora entendesse o risco que eu corria em repetir aquele nome.

Eu era uma criança que acreditava em muitas coisas, mas sempre à minha maneira, nunca exatamente como na história que me contavam. Aos poucos eu fui deixando de acreditar.

A primeira decepção marcante veio justamente por causa de uma crença religiosa. Todos somos iguais dizia a freira da escola e não mesmo eu sou o pai e tu a filha por isso tu vai ter que me obedecer dizia meu pai. Vai ter alguém que vai dizer que aah mas somos todos iguais aos olhos de deus e respondo que grandes coisas aos olhos de deus se socialmente isso não faz a menor diferença e a hierarquia está aí para oprimir as pessoas.

Deixei de acreditar em deus e passei a acreditar nas pessoas.

Escrevendo agora isso não me parece coerente, mas foi assim que aconteceu porque apesar de ter gente ruim como um diabo, não tem gente só boa como os anjos, a incoerência está aí por todos os lados. Aliás, sigo repetindo santo anjo quando preciso me concentrar para dormir, é um mantra mais que uma oração.

Acreditar nas pessoas faz a vida ter sentido e enche o peito de esperanças de que as coisas sempre podem ser melhores. Estar entre pessoas que me fazem pensar que existem pessoas que são como os anjos seriam se existissem me faz querer seguir nesse mundo horroroso porque parece que ele pode mudar e,melhor ainda, sendo uma pessoa também, a responsabilidade também é minha e aquela impotência que dói vai diminuindo.

Escrevo esse sentimento pela lembrança de como era senti-lo.

Ele anda escasso por aqui. Ando me esforçando para não deixar a apatia tomar conta do espaço que era da raiva e da indignação porque, se isso acontecer totalmente, a tristeza tomará conta de todo o espaço que seria da alegria.

Fé na gente junto e em movimento.
Deus não tem nada a ver com isso.
A pandemia sim.

Jornalista e Professora e tudo isso é só uma pequena parte.

Jornalista e Professora e tudo isso é só uma pequena parte.