dia 41: passei a tarde costurando uma máscara

Passei a tarde costurando uma máscara de tecido.
Nunca antes foi tão importante sorrir com os olhos.
Boca escondida. Palavra guardada.

Desde meu aniversário, no dia 7 da quarentena, voltei a escrever diário. Mas escrever aqui me parece demais. Tudo já foi dito e nada também. Todos verborrágicos com as bocas cobertas. Todos sentindo demais sem saber nomear, quiçá sem saber sentir.

Não faz falta mais um texto falando do mesmo. Do sofrimento ou do medo, da ansiedade, dos privilégios, mandando à merda as ~vibes coaching ou acompanhando cada uma delas. Mas hoje faz falta para mim ter os dedos sobre o teclado rapidamente sem tanto pensar.

Me desespera ouvir os carros da guarda municipal dizendo o perigo é real. A distopia é real. Costurar máscaras não pode parecer normal e a volta ao normal também assusta. Tenho medos não listáveis aqui.

Meu corpo está tensionado há 41 dias sem amolecer. Não é só o corpo que enrijece e tenho medo de quem vou ser quando sair daqui. Me culpo ao escrever isso porque ainda tenho privilégios. Mas tenho medo de mim mesma.

Quem eu vou ser daqui mais algumas semanas ou meses? Quão mais rígidos estarão meus sentimentos pra poder chegar nesse tempo?

Não posso amolecer todos os dias a sentir o que de fato sinto porque é preciso viver. Embora chore absolutamente todos os dias. Acordo no susto achando que meus gatos adoeceram e digo que os amo a todo momento. Estamos nós aqui apenas.

Não sou do tipo que não lida bem com a própria companhia. O que mais tem é amor na casa em que vivo com gatos e plantas e artes feitas por amigos ou por estranhos. Gosto de ficar só em meu espaço e pensar sobre a vida e acender velas e sentir que estou comigo e que isso é boa parte do que faz bem.

Boa parte.

Em um encontro de comunicação não-violenta cinco anos atrás, perguntaram sobre algo do qual não se podia abrir mão. Eu respondi que era o toque. Tocar é palavra e ação que gosto, tocar outras pessoas ou tocar em outras pessoas e ser tocada por elas. Encostar ou afetar. Tanto faz.

Sinto que deixo de existir a cada pouco em que não me relaciono com ninguém. Virtualidade é lido como oposto à realidade muitas vezes. As relações seguem aí, mas num ar solto e não virtuais. Amor solto no espaço. Sinto falta daquela mão na perna e dos olhos nos olhos dizendo que tudo bem. Já tentaram olhar nos olhos de alguém em uma vídeo chamada? Abraços nem penso.

Os medos são muitos e conviver não é simples, nem com medos nem com pessoas. Mas estar impossibilitada de olhar nos olhos de uma pessoa qualquer me dói, ser obrigada a me esforçar duramente todos os dias para seguir cuidando de mim e apenas de mim acreditando que assim cuido dos que quero, dói. Endurece buscar formas todos os dias de parar de chorar.

Eu queria ter passado a tarde costurando uma máscara.
Nunca foi tão importante sorrir com os olhos.
Mas hoje deixei os meus cheios de água jogados na cama para ver se amanhã meu corpo tem mais força e me levanta daqui.

Há dias melhores.

Jornalista e Professora e tudo isso é só uma pequena parte.

Jornalista e Professora e tudo isso é só uma pequena parte.