O braço empurra a água para trás, jogando o corpo para frente, faz o círculo perfeito em torno do ombro e mergulha no mesmo instante em que o outro braço recomeça. Esquerdo, direito, esquerdo outra vez, mas, agora o queixo levanta junto ao ombro, o rosto vira para trás, participando do movimento enquanto meu pulmão se enche de ar e direito, esquerdo, direito, queixo, ar, um ciclo sem fim.
O corpo todo se movimenta em sincronia e é flutuando que eu me sinto mais livre, mais eu. Tudo e nada sob controle. Nadar é ser abraçada pela água e dançar com ela. Nadar no mar é fazer isso com a natureza. Aprendi a nadar tarde, aos 23 anos, mas já se vão sete em que esse é o meu lugar: na água, ninguém me acessa; se o mundo acabar, só serei avisada quando estiver seca. Na água, eu me acesso; pensamentos passam e só eles estão comigo, escolher focar em algum ou meditar depende só de mim.
Fiz minha primeira travessia no mar há três anos mais ou menos. Entrei no mar no meio de um tanto de gente. Nadei. Afundei. Nadei. Quando consegui me estabilizar depois de ser atropelada por nadadores que, de fato, concorriam ao prêmio, me vi distante da praia e o medo tomou conta de mim e uma voz falou dentro da minha cabeça: "tu veio aqui pra morrer, é?". No mar, o queixo não pode colar no ombro para respirar, é preciso levantar o peito e puxar o ar frontalmente, já que o que te guia não são as linhas no chão, mas as boias à frente. No mar, não é possível olhar para trás.
Olhei para frente e, dois quilômetros depois, coloquei as pernas cansadas na areia, ganhei uma medalha e uma fruta para recompor as energias e os cantos dos meus lábios quase encostaram em meus olhos tamanha a felicidade que senti. Eu fiz a travessia inteira cantando mentalmente. Cantar é meu mantra e nadar é minha meditação. Não sou eu quem me navega, quem me navega é mar, olha o mar não tem cabelos que a gente possa agarrar. Bem assim, com a letra errada mesmo porque o que importa é me desconectar do mundo e me conectar em mim. A música isola os as vozes da cabeça, a água isola o resto todo. Sou apenas eu, um pontinho no meio do nada.
Enquanto não tem mar, vivo como um hamster na gaiola nadando em uma raia de piscina. Aliviando o corpo, cantando mentalmente e me preparando para voltar. Enquanto não tem piscina, eu escrevo saudosa, sonhando com o dia em que a pandemia vai passar e eu vou estar feliz com uma banana na beira da praia e uma medalha com os dizeres 19º Lugar: parabéns por participar. Afinal, ser um pontinho no meio do mar, distraída em meus pensamentos, focada nos movimentos do corpo é minha forma de me conectar com quem eu sou e de lembrar que é possível sim atravessar o que for.

Jornalista e Professora e tudo isso é só uma pequena parte.

Jornalista e Professora e tudo isso é só uma pequena parte.