A vida acontece ao mesmo tempo

preciso estar bem primeiro. teve um dia em que essa frase surgiu para mim quase como um hino de liberdade, de autocuidado, um lembrete de que eu também importo e que é preciso cuidar de mim. esse dia faz muito tempo. hoje, essa é uma das frases que mais me incomoda, e olha que a concorrência é grande.

a chave está naquele também, eu também importo. eu não importo primeiro.

me conta quando a gente se sente cem por cento bem a ponto de poder ter estar bem como pré-requisito? o cem por cento é só uma hipérbole, ok? o que importa é que,na vida, tudo acontece ao mesmo tempo, sem antes ou depois, é tudo junto. então, temos que estar bem juntos.

nada contra o autocuidado, aquele real que ultrapassa as barreiras da pele. sou adepta inclusive. autocuidado é fundamental. mas a palavra cooptada pela sociedade em que a gente vive já virou desculpa e sinônimo de individualismo e de egoísmo. juntinho com a saúde mental. saúde mental é algo absurdamente importante, só alguém que não possui sentimentos ou sentidos poderia dizer o contrário, especialmente em tempos de pandemia. usar aspectos tão difíceis de mensurar e transformar em individualismo chega a doer. e dói mesmo, fisicamente.

lá no início do ano, eu já vinha apertando os olhinhos de desconfiada para quem achava que a pandemia mudaria as pessoas para algo melhor, mais perto do precisamos estar bem juntos. precisamos cuidar uns dos outros. hoje, infelizmente, vou fechando o ano com a sensação gritante de que pensar coletivamente nem passa pela cabeça de tanta gente por aí, gente que pendura bandeira cor de arco íris na janela e se considera na luta. não sou ingênua a ponto de pensar que bolsonaristas pensariam no outro. talvez eu seja ingênua por ter esperado que ninguém além dos pró-desgoverno trataria a pandemia, que mata quase mil pessoas por dia, como gripezinha. Ou agindo não tão descaradamente, mas descaradamente também.

Eu sigo segurando na mão de uma suposta ingenuidade para pensar que a pandemia fez as pessoas fecharem-se em si e não conseguirem olhar para os outros. que fizeram seu melhor. mentira. eu tento me convencer disso, mas uma lais amarga diz o oposto. as pessoas são assim. não todas, espero.

uma vez perguntei para o meu irmão o que fazia ele continuar acreditando. entre idas e vindas, minha crença no ser humano, descobri, vem do coletivo. eu tô começando a desacreditar do ser humano. com muito esforço, eu não vou.

enrolo esse texto há semanas e empurro para perto de um espírito de fim de ano para ser menos amargo. mas a verdade é que sigo sentindo essa dor. por que não estarmos bem juntos? por que eu primeiro?

para além das máscaras, figurativas ou não, dos desrespeitos em relação à saúde dos outros, penso aqui também nos pequenos detalhes, nos pequenos abandonos que aconteceram durante o ano. na falta de cuidado. do coronavírus à tristeza e à solidão, quando vamos pensar em proteger o outro e não só em nos mantermos protegidos?

meu amor a quem me protegeu em 2020.

Jornalista e Professora e tudo isso é só uma pequena parte.

Jornalista e Professora e tudo isso é só uma pequena parte.